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Um dia na vida das mulheres que orientam a implementação do programa Uma Vitória Leva à Outra
Thays Prado, publicado em 17/10/2019
Conheça a rotina de trabalho da equipe da Empodera, que se desloca pelo município do Rio de Janeiro, para acompanhar de perto a implementação do programa Uma Vitória Leva à Outra, garantindo continuamente sua qualidade

 

Para que uma instituição implemente a metodologia Uma Vitória Leva à Outra, primeiro, é necessário que ela tenha passado por um treinamento de 4 dias, realizado pela ONG Empodera, parceira do programa conjunto entre ONU Mulheres e Comitê Olímpico Internacional. Em seguida, as instituições treinadas participam de uma concorrência via edital, realizado anualmente pelo Fundo Elas. As organizações apresentam projetos que explicam em detalhes como pretendem implementar a metodologia em seu contexto específico e são, então, selecionadas por um comitê independente. As instituições escolhidas para aplicar o programa recebem recursos financeiros para a implementação do currículo e assistência técnica contínua, oferecida pela equipe da Empodera, às facilitadoras das oficinas temáticas e às professoras de Educação Física responsáveis pelas práticas esportivas, durante todo o período de execução do programa.

O objetivo dessa formação continuada é garantir que o conteúdo co currículo seja plenamente apreendido pelas profissionais envolvidas na implementação e repassado às adolescentes participantes do programa de forma correta e com qualidade.

Atualmente, a equipe da Empodera que acompanha de perto a realização das oficinas temáticas e das aulas esportivas é composta por quatro mulheres com excelentes conhecimentos tanto sobre igualdade de gênero e empoderamento de meninas e mulheres, como sobre o uso do esporte para a mudança social. Beatriz Akutsu, Fernanda Garcia, Mariana Koury e Yasmin Freitas trabalham sempre em duplas e, ao longo da semana, percorrem a cidade do Rio de Janeiro, deslocando-se de uma instituição implementadora a outra. Assim, às terças-feiras, por exemplo, enquanto Yasmin e Mariana estão em Pedra de Guaratiba, auxiliando as organizações Censotraco e Fundação Angélica Goulart, Fernanda e Beatriz atendem o Instituto Companheiro das Américas, na Cidade de Deus, e a Miratus, em Jacarepaguá.
 

Foto: Empodera

Por mais que as realidades sejam diferentes entre as organizações e os territórios em que estão localizadas, há muitos pontos em comum na rotina das quatro profissionais. Antes de o sol nascer, elas já estão de pé. Se arrumam, saem de suas casas e levam cerca de duas horas em uma combinação de diferentes tipos de transporte público para chegar a uma das instituições implementadoras do programa. Uniformizadas, são rostos conhecidos por motoristas e passageiros frequentes nesse caminho.

Aproveitam o trajeto para repassar, mais uma vez, sozinhas ou com sua dupla, o conteúdo do currículo que será abordado naquele dia com as adolescentes. Enquanto temas, falas de dias anteriores e perguntas por fazer para estimular o debate passam por suas mentes, seus olhos observam as mudanças na paisagem e refletem sobre uma cidade complexa.

Quando chegam à instituição, se encontram com a facilitadora da oficina temática e a professora de Educação Física e dedicam um tempo, que varia de acordo com a realidade de cada local, ao planejamento dos detalhes das atividades que ocorrerão logo em seguida e na separação dos materiais necessários. Nesse momento, algumas meninas participantes do programa já estão por ali, à espera.

Enquanto um grupo de meninas segue para a oficina temática, ministrada pela facilitadora da instituição com o auxílio de uma integrante da equipe da Empodera, o outro, vai para a prática esportiva, realizada pela professora de Educação Física da instituição, com o apoio de outra integrante. Após uma hora de duração, os grupos de meninas trocam: quem estava na oficina temática vai para a prática esportiva, e vice-versa.

As oficinas temáticas do currículo são divididas em 4 módulos que abordam os seguintes temas: 1) Autoestima e Liderança; 2) Saúde e Direitos Sexuais e Reprodutivos; 3) Enfrentamento à Violência contra Meninas e Mulheres; 4) Educação Financeira e Planejamento do Futuro. A maioria das instituições acabou reservando uma sala para a realização das oficinas para garantir que este seja um espaço física e emocionalmente seguro para as participantes.

“Atuamos em territórios com maior ou menor grau de conflitos armados e em que serviços básicos como saneamento, saúde e educação não chegam ou são totalmente precários. Mesmo com acesso a internet e meios de comunicação, as meninas não recebem informação correta sobre assuntos básicos como menstruação ou prevenção a gravidez não planejada e ISTs. Elas contam que nunca ouviram sobre isso na escola, ou que tiveram uma aula, mas de forma muito chata, e que as famílias não falam sobre o assunto. E quando elas obtêm informações, muitas vezes, estão carregadas de mitos”, conta Beatriz.
 


As sessões propostas pelo currículo do programa são sempre lúdicas e fazem uso de diversas técnicas de facilitação – teatro, colagem, produção de cartazes, brincadeiras, vídeos, rodas de conversa etc. – para que as meninas se envolvam com o tema e participem de toda a oficina. “Isso é uma das coisas que as meninas mais gostam, não se trata de uma palestra”, diz Beatriz. “Elas comentam que na escola a professora passava slides e elas copiavam. Aqui, elas conseguem falar”.

Para Mariana, “uma hora é um tempo muito curto para que a gente possa, de fato, mergulhar nos conteúdos. Mas a oficina tem o papel de trazer informações e despertar reflexões que depois elas podem aprofundar por si mesmas”. Mesmo assim, as transformações já são notadas. “Em pouco tempo, começamos a perceber o desenvolvimento de muitas habilidades das meninas. Elas estão mais à vontade para falar de suas experiências pessoais, mais comunicativas, se sentem ouvidas, escutam o que a outra tem a dizer, sabem complementar um outro ponto de vista. E, o mais importante, elas reconhecem que não existem tantos espaços como esse, para conversar sobre esses assuntos, mas que aquele é um espaço delas, e que elas têm total liberdade para construir e transformar esse espaço constantemente”, observa Yasmin. Um espaço que é tão delas que cada turma vai ganhando sua própria identidade. Algumas turmas criaram um nome para si, outras, estabeleceram um pequeno ritual para começar cada sessão – definir uma palavra do dia, por exemplo – e uma outra adotou um gesto de mãos usado exclusivamente para cumprimentar as participantes do mesmo grupo.

“Elas já entenderam que são visíveis, que são importantes e que todo mundo tem algo a dizer e a ensinar a partir de sua própria experiência. Elas veem em nós, nas professoras e facilitadoras, figuras que estão ali para apoiá-las e para acionar a rede de serviços para meninas e mulheres, se for necessário. E, mais, elas estão levando os temas trabalhados no programa para as conversas com amigas e com a família”, observa Fernanda.
 

A prática esportiva está sempre alinhada ao conteúdo trabalhado na oficina temática. Assim, antes de as meninas praticarem a modalidade em si, elas começam fazendo uma atividade corporal lúdica que trata do mesmo assunto da oficina e contribui para que assimilem ainda melhor os conhecimentos através dos próprios movimentos corporais. Isso sem falar nas habilidades que as modalidades esportivas desenvolvem – saúde e bem-estar físico e emocional, foco, disciplina, traçar metas, persistência, resiliência, superação, trabalho em equipe, convivência pacífica, valorização da diversidade, comunicação e respeito.
   
Antes da chegada do programa, a experiência da maior parte das adolescentes era de completa inacessibilidade ao esporte – inexistência de atividades esportivas gratuitas, ausência de equipamentos e materiais mínimos, falta de dinheiro para comprar comida, quem dirá para pagar uma mensalidade. De modo que ver meninas praticando esportes nas quadras das comunidades – espaço utilizado pela maioria das organizações implementadoras – é algo novo para boa parte das pessoas que passam por esses locais. Nos primeiros dias, o fato provocou olhares curiosos vindos das calçadas e janelas das casas do entorno; resistência entre os meninos, acostumados a ter a quadra só para eles; e atitudes machistas de homens, que insistiam em ficar por perto e fazer comentários de assédio. As professoras, as instituições e a equipe da Empodera estão ao lado das meninas e fazem o que podem para sustentar um espaço de segurança. Mas recuar na implementação das atividades por falta de espaço mais reservado também não foi a atitude que elas escolheram ter.

Beatriz reflete que, “é importante entender que, nem sempre, a realidade vai corresponder ao ideal. Mas é justamente nos lugares que não são os ideais é que precisamos estar, e dar as condições para que as meninas ocupem espaço”. Aos poucos, a presença delas vai se tornando mais naturalizada e o imaginário da comunidade sobre o que é ser uma menina ou sobre quem tem direito ao esporte vai mudando.

“Quando chegávamos na quadra, sempre falávamos com os meninos, explicávamos sobre o programa e pedíamos para eles saírem por aquele momento. Agora, a gente chega e eles só nos cumprimentam com um ‘bom dia, professora’ e já saem, sabem que aquele é o horário do projeto”, conta Yasmin.

“Em uma das instituições em que trabalhamos, a realidade antes do programa era de que em atividades externas realizadas pela organização, os meninos praticavam esporte e as meninas faziam apresentações de dança. Agora, a quadra da instituição está reservada para as meninas praticarem a modalidade duas vezes por semana e essa se tornou a nova rotina. Com isso, as próprias meninas se sentiram mais importantes e a postura delas também mudou”, comemora Fernanda.

O processo de acompanhamento das atividades por Beatriz, Fernanda, Mariana e Yasmin tem um impacto direto não somente sobre as adolescentes, como também sobre as facilitadoras e professoras de Educação Física das instituições. Após a realização das atividades com as meninas, elas se sentam com as profissionais da organização para lhes dar um feedback sobre a atividade do dia – troca de impressões, o que funcionou, o que poderia ter sido melhor, lições aprendidas, esclarecimento de dúvidas, dicas de facilitação, aprofundamento do conteúdo e planejamento da próxima sessão. 

“Nesse desafio de formação continuada, gosto de ter em mente que não existe um perfil ideal de facilitadora ou professora. Nosso papel é identificar o que cada uma tem a oferecer e encontrar a melhor maneira de colocar esse potencial a serviço do grupo com o qual ela trabalha”, reflete Mariana.

O momento de feedback também é uma oportunidade que as facilitadoras e professoras usam para falar de si, relacionar suas experiências pessoais aos temas trabalhados, comentar sobre o que aprenderam com o currículo e as leituras extras e vídeos sugeridos na apostila e, assim, aprimorar a sua própria jornada de empoderamento. Muitas das profissionais envolvidas na implementação do programa trabalham com outros projetos dentro das mesmas instituições e também com adolescentes em outros espaços. Assim, seu desenvolvimento acaba beneficiando também outras pessoas e organizações, para além do programa em si.   

Foto: Empodera

Quando a manhã termina, as duplas seguem para outras instituições implementadoras, para um turno da tarde com novas meninas, novas profissionais, novos desafios e novos aprendizados.

A condução de volta pra casa, no fim do dia, normalmente, está bem mais lotada do que a que encontram pela manhã. Em meio a tanta gente também voltando para suas casas, nem sempre dá para prestar atenção na paisagem, mas o filme do dia vivido passa na cabeça de cada uma. Pequenas e grandes conquistas, pontos de melhoria, frases marcantes das adolescentes, desafios estruturais enfrentados por meninas e jovens mulheres em contextos de vulnerabilidade, perguntas sem respostas. E a tentativa de apreender tudo para registrar no diário de bordo.  

Quando chegam de volta às suas casas, já é noite. Estão exaustas do deslocamento e da intensidade do dia, inspiradas por trabalharem com o que amam fazer e, inevitavelmente, transformadas, um pouquinho mais do que quando saíram pela manhã. “Gosto muito de estar em lugares diferentes e vivenciar as diversas realidades da cidade. Aprendo muito com isso”, comenta Mariana. “Me vejo crescendo como pessoa e como profissional. Todas as vezes que me sento para preparar uma sessão do currículo, eu acabo aprendendo um pouco mais sobre esses temas, e mesmo em meus momentos de lazer, se me deparo com uma situação que tem a ver com uma temática que estamos trabalhando, é inevitável não pensar nas meninas”, observa Fernanda. “Às vezes, eu acho que sei sobre alguma coisa e, durante uma sessão, uma menina traz uma outra fala que me surpreende. Quando isso acontece, eu procuro ouvir e aprender com essa outra experiência. Me emociono várias vezes só de pensar em como, em pouco tempo, eu sou uma pessoa diferente do que eu era”, conta Beatriz. “Por mais que a gente esteja em cada um desses espaços para ampliar o leque de opções das meninas, elas também ampliam o nosso olhar em relação às nossas próprias vidas”, diz Yasmin. Afinal, o programa Uma Vitória Leva à Outra tem esse poder de provocar mudanças em todo mundo que se dispõe a fazer parte dele.

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